O equipamento não é o culpado — e os dados provam isso
Quando um resultado sai fora do esperado, o caminho mais rápido costuma ser questionar o analisador, suspeitar do lote de reagente ou pedir recalibração. É um reflexo compreensível: o equipamento é visível, auditável, passível de controle. O problema é que, na maioria das vezes, a falha já estava consumada muito antes de qualquer botão ser pressionado.
Estudos consistentes na literatura laboratorial apontam que aproximadamente 70% dos erros em análises clínicas têm origem na fase pré-analítica — tudo aquilo que acontece desde o preparo do paciente até a chegada da amostra ao analisador. Para o gestor que ancora sua estratégia de qualidade apenas nos processos analíticos e pós-analíticos, esse dado representa um ponto cego significativo.
O que a fase pré-analítica realmente abrange
É comum reduzir a fase pré-analítica ao momento da punção venosa, mas ela começa muito antes. Envolve a orientação ao paciente sobre jejum, uso de medicamentos e atividade física prévia; a triagem e o cadastro correto da requisição; a escolha do tubo adequado com o aditivo correspondente ao exame solicitado; a técnica de flebotomia em si; o tempo e as condições de transporte; e o processamento inicial da amostra, incluindo centrifugação e armazenamento.
Cada uma dessas etapas é executada por pessoas, em condições variáveis, frequentemente sob pressão de tempo — e sem o suporte de automação que existe na bancada analítica. Essa combinação de fatores humanos, logísticos e ambientais é exatamente o que torna essa fase tão vulnerável.
Quais erros aparecem com mais frequência no Brasil
Um levantamento realizado em Maringá-PR com mais de 700 mil testes identificou que, das amostras rejeitadas e submetidas a nova ordem de coleta, 70,8% haviam sido comprometidas na fase pré-analítica. Os motivos mais frequentes foram volume insuficiente de amostra, amostra coagulada e hemólise — três problemas diretamente ligados à técnica de coleta e ao manuseio do tubo.
Além desses, as falhas mais documentadas na realidade brasileira incluem estase venosa prolongada durante a punção, identificação incorreta do paciente, requisições extraviadas ou preenchidas de forma incompleta, tempo de jejum inadequado por orientação insuficiente, e centrifugação fora dos parâmetros recomendados. Nenhum desses erros é detectável pelo controle de qualidade analítico — eles chegam ao equipamento disfarçados de amostra válida.
Por que essa etapa é tão difícil de controlar
A resposta é estrutural. Diferentemente da fase analítica, onde protocolos de calibração, controles internos e manutenção preventiva criam camadas de proteção, a fase pré-analítica depende de variáveis que o laboratório não controla completamente: o comportamento do paciente, a experiência do flebotomista, as condições do posto de coleta externo e o percurso da amostra até o processamento.
Pesquisas recentes apontam como causas recorrentes a alta rotatividade de pessoal, treinamento insuficiente ou desatualizado, ausência de orientação estruturada ao paciente e, em muitos casos, simplesmente a falta de entendimento sobre o impacto de cada detalhe da coleta no resultado final. O problema não é falta de competência técnica — é falta de sistema.
O que a nova regulamentação brasileira exige
Em junho de 2025, a ANVISA publicou a RDC nº 978, que revogou a RDC 786/2023 e trouxe mudanças relevantes para a cadeia pré-analítica no Brasil. Entre os pontos de maior impacto para gestores de laboratório estão a obrigatoriedade de um Programa de Garantia da Qualidade nos postos de coleta e a exigência de um profissional legalmente habilitado como supervisor técnico do pessoal de coleta.
A norma também formalizou a figura da Central de Distribuição, estrutura dedicada exclusivamente à logística pré-analítica, e regulamentou o funcionamento dos estabelecimentos de análises clínicas itinerantes, que agora precisam ser temporários e vinculados a um Serviço Tipo III com responsável técnico definido. Essas medidas reconhecem, em termos regulatórios, o que a ciência já demonstrava: a fase pré-analítica precisa de gestão ativa, não apenas de boa vontade operacional.
Vale lembrar que a RDC nº 302/2005 da ANVISA e as normas ISO 15189:2022 e ISO/IEC 17025:2017 já estabeleciam requisitos de competência técnica, rastreabilidade e gestão de riscos aplicáveis a toda a cadeia laboratorial — incluindo a fase pré-analítica. A RDC 978/2025 reforça e atualiza esse arcabouço.
Como reduzir esses erros na prática
A boa notícia é que a maioria dos erros pré-analíticos é prevenível. O ponto de partida é reconhecer que eles existem e que precisam de monitoramento sistemático — o que implica registrar rejeições de amostras, categorizar os motivos e acompanhar indicadores ao longo do tempo.
Na sequência, algumas ações demonstram resultado consistente na literatura e na prática de laboratórios bem geridos:
Implantação e revisão periódica de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) para todas as etapas da coleta, incluindo orientação ao paciente, técnica de punção, escolha de tubos, transporte e recepção de amostras.
Capacitação contínua da equipe de flebotomia, com atenção especial a colaboradores recém-admitidos e atualização frente a novas normas como a RDC 978/2025.
Orientação estruturada ao paciente, seja por meio de materiais impressos, confirmação por telefone ou orientação no momento do agendamento — reduzindo erros que dependem do comportamento do usuário.
Monitoramento ativo de rejeição de amostras, com indicadores mensais por tipo de erro e por ponto de coleta, integrando esses dados à rotina de reuniões de qualidade.
Supervisão técnica presente e acessível, especialmente em postos de coleta externos, conforme agora exigido pela RDC 978/2025.
Conclusão
Redirecionar o olhar da fase analítica para a fase pré-analítica não significa desvalorizar a qualidade do processamento — significa fechar uma porta que, para a maioria dos laboratórios brasileiros, permanece aberta. Antes de questionar o equipamento, vale perguntar: como chegou essa amostra até ele?
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Referências
ANVISA. RDC nº 978, de 6 de junho de 2025. Dispõe sobre os requisitos para o funcionamento de postos de coleta e centrais de distribuição de amostras biológicas. Diário Oficial da União, 2025.
ANVISA. RDC nº 302, de 13 de outubro de 2005. Dispõe sobre Regulamento Técnico para funcionamento de Laboratórios Clínicos. Diário Oficial da União, 2005.
Associação Brasileira de Normas Técnicas. ABNT NBR ISO 15189:2022 — Laboratórios clínicos: Requisitos de qualidade e competência. São Paulo: ABNT, 2022.
Plebani M. Errors in clinical laboratories or errors in laboratory medicine? Clinical Chemistry and Laboratory Medicine. 2006;44(6):750-759.
Lippi G, Guidi GC, Mattiuzzi C, Plebani M. Preanalytical variability: the dark side of the moon in laboratory testing. Clinical Chemistry and Laboratory Medicine. 2006;44(4):358-365.
Oliveira CAL, Mendes ME (org.). Gestão da fase pré-analítica: recomendações para coleta de sangue venoso. 2. ed. São Paulo: Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), 2017.


